17 Junho 2006

4. As modelagens eletrônicas atualmente

[6]

Passei a apresentar as modelagens como parte integrante do meu trabalho. O cliente escolhe os ângulos enviados por e-mail e, assim, tem a oportunidade de visualizar o desenho e o projeto antes do seu início. Muitas vezes, ele volta atrás para rever alguma coisa do projeto que não está lhe agradando, ou ainda acaba usando os ângulos (visada, vista, como queiram) obtidos para fazer uma pré-entrega ou, até mesmo, usar na apresentação final [6].

No caso de empreendimentos imobiliários, esse processo é extremamente importante, pois se podem buscar rapidamente ângulos que enriqueçam ou valorizem mais o “produto”. Ás vezes são necessárias inúmeras tentativas até “achar” (posicionar câmera e observador) o ângulo ideal.

[7]
Ainda hoje, trato as modelagens apenas como base para o trabalho. Portanto, alerto meus clientes sobre possíveis imperfeições, o que não ocorre nas modelagens feitas para renderizações eletrônicas, feitas ou exportadas para outros programas gráficos, e que necessitam de precisão para receber os materiais e texturas. Dependendo do prazo, por exemplo, não vale a pena modelar todos os móveis exatamente como são nas referências escolhidas pelo arquiteto/decorador, principalmente cadeiras e sofás. Eu, freqüentemente, uso blocos prontos que sejam apenas parecidos com os reais, e acerto os detalhes e diferenças na mão. Quando há tempo e muitas repetições (uma mesa de jantar com 12 cadeiras clássicas, por exemplo) [7], opto por desenvolver mais os blocos, embora isso possa aumentar o custo do desenho. Até inserir pessoas é interessante porque já cria a noção de escala e profundidade.

Mesmo assim, penso que o período em que passei fazendo as perspectivas “na raça” (como gosto de dizer), que deve corresponder à cerca de 20% ou 30% da quantidade de desenhos de meu portifólio, foi essencial para o desenvolvimento do meu traço e personalidade de desenho. Sem essa habilidade também não seria possível fazer croquis de apresentação e, certamente, os desenhos seriam muito duros e menos gestuais. Além disso, apesar da ajuda dos feras que mencionei anteriormente, eu mesmo “acho” os ângulos nas modelagens - pela prática manual adquirida anteriormente. Ás vezes, basta uma passada de olhos em um desenho em desenvolvimento para que eu encontre facilmente linhas tortas ou fora do ponto de fuga. Por isso, sempre incentivo o aprendizado ou o exercício de desenhos à mão livre para compensar a falta de flexibilidade das modelagens.

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Acertadamente, o tal Paul Stevenson, mencionado no último artigo, observou que o uso do computador como ferramenta de trabalho para lustradores (como já era para arquitetos) seria não só uma opção, mas uma necessidade, na medida em que quanto maior for à capacidade de especulação sobre um tema, maior a força expressiva de sua arte. Ao meu ver, as inúmeras possibilidades de criação de ângulos que uma modelagem eletrônica pode oferecer enriquecem muito o resultado final do processo e elevam a qualidade de atendimento na prática do desenho de arquitetura [8].

Inevitavelmente, comecei a falar de um assunto interessante, mas que será estudado posteriormente: as diferenças conceituais e a escolha feita entre renderizações eletrônicas e perspectivas artísticas por arquitetos e pelo mercado imobiliário. Mas tentarei não fugir do roteiro. No próximo artigo pretendo complementar este tema com alguns exemplos e explicar como faço a montagem à grafite dos desenhos, após a escolha do ângulo, dando as primeiras pinceladas” sobre as técnicas.

Para quem conhece e é adepto do orkut.com, sugiro conhecer a comunidade “Croquis”, onde diversos temas ligados às ilustrações são discutidos e comentados por muitos estudantes, professores e profissionais.

Um abraço.

3. A modelagem 3D em Autocad

Continuando a explorar a metodologia do meu trabalho, chegou o momento de falar sobre o uso do computador na montagem das perspectivas artísticas. Esse tópico foi dividido em dois artigos: neste primeiro, explicarei como e quando passei a utilizar as modelagens eletrônicas e no próximo, qual é a sua importância no meu trabalho atualmente.

[1]
Já em 1994, Paul Steveson Oles, um dos fundadores da então American Society of Architectural Perspectivists, fazia um ensaio sobre o que chamou de “touch versus tech” publicado no livro The Art of Architectural Illustration, especulando sobre como o uso do computador afetaria o trabalho dos ilustradores. Nesta época, já se viam no exterior renderizações eletrônicas [1] (e mesmo animações virtuais), deixando os tradicionalistas com receio de que os guaches, aquarelas, marcadores e lápis se tornassem obsoletos e dispensáveis. Dizia-se que os modelos gerados em computador podiam ser mais confiáveis que as perspectivas feitas à mão, pois não tinham a “impressão do artista”, e que, portanto, os aproximava das maquetes físicas quanto à sua credibilidade. Apesar disso, Paul Stevenson já descrevia o uso de modelos eletrônicos para servirem apenas de “wire-frame”, ou base, para renderizações feitas à mão.

[2]

Entrei na faculdade em 1993, mas adiei o uso de Autocad até onde foi possível, pois gostava muito de desenhar à mão livre e, para falar a verdade, não sabia nem ligar um computador. As primeiras perspectivas surgiram em alguns “bicos” com arquitetos e decoradores (Simone Borgas [2] e Fernando Piva, por exemplo) e no meu primeiro estágio com a arquiteta Maria Inês Guiraldeli Fiasch. Neste escritório passei quase dois anos fazendo desenhos à grafite (que sorte!) e montei algumas “perspectivinhas” à mão (lá havia alguns desenhos do Neco que me serviam de inspiração, além dos desenhos à traços do Frank Lloyd Wright, que já me encantavam).

[03]
No começo, eu fazia as perspectivas apenas observando as plantas e fachadas e rascunhava a altura do observador, o ponto de fuga e a linha do horizonte até achar uma posição boa. Usava o bom senso e me preocupava com as proporções das paredes: a perspectiva de uma parede tinha que ter a exata proporção da mesma, na fachada ou elevação. Através de referências, como distâncias entre portas e janelas, eu preenchia o desenho com pequenos retângulos e quadrados imaginários. O equilíbrio entre as partes tinha que ser o mesmo na perspectiva e na fachada [3].

[4]
Muitas vezes as paredes pareciam “esticadas” demais e era hora de apagar tudo e começar de novo. Eu também utilizava outras técnicas simples, como colocar uma aresta em escala e puxar as alturas apartir dali ou usar diagonais para achar o centro dos espaços. No início, fiz muitas perspectivas com só um ponto de fuga, pois eram mais fáceis - nesse caso podemos ter a parede do fundo em escala -, apesar desse tipo de perspectiva ser um pouco dura [4]. Eu até aprendi na faculdade aquele método tradicional – perspectiva cônica, ou exata -, mas nunca o usei na prática. No “olho” era mais rápido. Ou mais legal.

Desenhar curvas, móveis e pisos complexos era o desafio. Imaginem fazer em perspectiva, à mão, um piso em forma de “escama de peixe” (na verdade acho que eu não fazia - fingia que não era comigo ou falava para o arquiteto: “Hum...esse piso não vai ficar legal...”).

Com o tempo o Autocad, que já estava me perseguindo, resolveu unir-se a mim (ou eu a ele?) e então passei a colocar as plantas em perspectiva, ainda sem “subir as alturas”. Isso começou a facilitar o processo, pois eu já tinha as profundidades prontas e já conseguia achar os ângulos de vista. Aprendi fuçando e com a ajuda de amigos por telefone - como diriam, “na orelhada” (literalmente). Depois, subir as linhas foi o próximo passo. Achar ângulos inusitados e brincar com a distorção da câmera era o máximo – um ponto de fuga só era coisa do passado.

[5]
Mal sabia usar o comando “extrude”, quando comecei a procurar ajuda de colegas, que já dominavam o Autocad3D, para então aprimorar as montagens e tentar reduzir meu envolvimento nessa parte, sobrando assim mais tempo para me dedicar à arte-final. Logo, os blocos (arquivos prontos) de móveis e carros, sempre difíceis de desenhar à mão, foram ficando cada vez melhores e mesmo formas arquitetônicas complexas, como rampas em espiral, fachadas neoclássicas repletas de molduras e telhados de “mil” águas, passaram a serem facilmente desenhadas no papel. Coitados daqueles que modelaram essas “pedradas”: Michel Valente, Marcio Guirado, Fernanda Campos e Marcelo Salvagni, entre outros [5].

Até lá.

2. Metodologia – Processo de Execução de Perspectivas Artísticas

Para dar prosseguimento a esta coluna sobre perspectivas artísticas, considero interessante exemplificar como é o processo de trabalho de um ilustrador de arquitetura (ou perspectivista, como queiram), desde a captação das informações com o cliente até a entrega do trabalho. Essa parte será dividida em alguns tópicos a serem apresentados nas próximas semanas: a coleta de informações, a modelagem em 3D, a escolha do ângulo, a pré-montagem, a arte-final, os últimos ajustes e a entrega.

Coleta de informações
(1)
Quando se trata de um novo cliente - pensando inicialmente em um escritório de arquitetura ou decoração - essa fase deve ser a mais eficaz possível. Normalmente, nesta etapa, ainda não há grande interação entre cliente e ilustrador, então é muito importante que o projeto esteja numa fase razoavelmente adiantada (significa que deve haver pelo menos uma planta baixa, um corte e as elevações necessárias) e que haja um prazo razoável para fazer o trabalho. Esse prazo razoável é importante para que o ilustrador tenha tempo de tirar quaisquer dúvidas e até mandar uma prévia da imagem para possíveis correções, antes da entrega final. Também é bom que o cliente defina claramente junto com o ilustrador a técnica a ser utilizada, observando atentamente o portifólio do mesmo. Isso pode tornar o trabalho um pouco “duro”, o que é normal no começo, pois o ilustrador não se sente muito confiante para “criar em cima” do desenho, mesmo com as prévias.

(2)
Portanto, é necessário um contato pessoal para facilitar a comunicação e a interpretação do projeto por parte do ilustrador. Para um primeiro trabalho com um novo cliente eu procuro evitar os croquis conceituais, pois demandam muita cumplicidade, como já foi dito no último artigo.

Para clientes habituais, toda essa fase pode ser feita facilmente por telefone e email, pois o cliente já sabe o que o ilustrador vai precisar - inclusive, às vezes acaba direcionando seu trabalho e sua apresentação exatamente para este fim. Este cliente faz um contato prévio com o ilustrador para agendar o trabalho e já fica sabendo qual será o prazo para a execução da perspectiva (e se bate com o dele) e quando deve começar a mandar o material.

(3)
Citando um exemplo comum: a perspectiva de um living. Inicialmente, o cliente deve enviar uma planta baixa, com o layout pré-estabelecido e as elevações (1) de alguma peça importante a ser construída (uma estante, um painel ou detalhe de forro) para que possa ser iniciada a fase da modelagem. Para uma perspectiva de interiores, como no caso do living, o cliente precisará enviar também as fotos dos móveis e objetos escolhidos ou mantidos, além de fotos do local, o que é sempre muito útil. Estas referências podem ser enviadas aos poucos, porque podemos usar blocos (arquivos padrões) quaisquer do Autocad para adiantar o trabalho em 3D. O ângulo pode ser escolhido, inclusive, já nesta fase (2), pois também direciona o que o arquiteto ou decorador deve procurar, dar atenção ou deixar de lado, pois tal detalhe aparecerá ou não na imagem final. (3)

Logicamente, o processo ideal seria o cliente, principalmente o novo, montar um “pacote” com todas as informações necessárias para a execução ininterrupta do trabalho. Mas como todos estão acostumados, as entregas (de todo mundo) são sempre “pra ontem”, então temos que encontrar soluções para que esse serviço possa ser viabilizado.

(4)
Cabe, obviamente, ao ilustrador se adaptar também a forma como o arquiteto produz e se organiza. Pela experiência, em duas ou três perspectivas, esse processo tende a ser equalizado. Com o tempo, inclusive, o arquiteto ou decorador acaba utilizando esse serviço como parte do seu processo criativo, pois resolve muitas questões, observando as modelagens e as prévias das imagens ou, até mesmo, trocando idéias com o ilustrador.

Resumindo:
Para fazer uma perspectiva, o arquiteto ou decorador vai precisar ter pelo menos uma semana de prazo (essa é boa...); planta-baixa do ambiente ou dos principais pavimentos; um corte mostrando as alturas principais da construção (o pé-direito); as elevações daquilo que deseja mostrar na perspectiva, seja a fachada da casa ou desenho de um móvel de marcenaria; fotos do local, de móveis e objetos e se possível um croqui para complementar o projeto. Se, para o arquiteto, o prazo não permite ou não vale a pena investir tanto no desenvolvimento de um estudo preliminar (por exemplo, numa concorrência), então deve confiar em seu ilustrador para que ele faça uma imagem forte e eficiente. Mas, quanto menos precisas forem as informações passadas, mais “nas mãos” (literalmente) dele vai ficar. Nestas situações é que geralmente são realizados os trabalhos mais expressivos, mas que nem sempre são os mais eficientes, como forma de comunicação simplificada para o leigo (4).

Na próxima etapa falaremos como é feita a modelagem em 3D para a realização das perspectivas e como esse processo facilita e enriquece os resultados dos trabalhos.

Novamente me coloco à disposição para dúvidas e sugestões.
Até a próxima.

1. Ilustrações de Arquitetura

Como arquiteto e amante do desenho à mão-livre, acabei me especializando em ilustrações artísticas. Por isso, essa coluna será baseada, principalmente, nesse caminho, embora, como poderão observar, o uso do computador está presente em praticamente todas as etapas do processo de execução.

O desenho é a linguagem usada pelos arquitetos, decoradores e paisagistas, para comunicarem suas idéias aos clientes e potenciais clientes. Em um sentido amplo, o desenho de arquitetura pode ser uma planta baixa, uma fachada, um corte ou uma perspectiva. São formas de convenção estabelecidas para representar graficamente um projeto. A maneira como estes desenhos são executados e apresentados, diferencia e qualifica os profissionais da área. É aí que entra o trabalho do ilustrador.

O mercado competitivo exige que o profissional busque cada vez mais qualidade em seus serviços, diferenciando-o dos concorrentes. Portanto, é imprescindível saber vender ou valorizar todo aquele pensamento e toda a experiência que está por trás de um projeto, porque nem todas as pessoas exergam isso com clareza e acabam desmerecendo o trabalho do profissional. Com a correria para cumprir prazos, muitos profissionais da área não têm tempo para incrementar suas apresentações. Por isso, acabam buscando, em outras pessoas ou escritórios especializados, a mão (ou os olhos) que não têm disponíveis.

Fato é, que todos precisam mostrar “o algo mais”. Todos precisam extrapolar o esperado. E uma das maneiras de se fazer isso (além de fazer um bom projeto, é claro) é valorizar os desenhos; “humanizá-los”, colocando pessoas, móveis, carros, vegetação, e embelezá-los com sombras, texturas e cores. É preciso ter elementos que forneçam noções de profundidade e escala – tudo para facilitar a leitura do leigo. A arquitetura pode ser minimalista, o desenho não.

Os tipos de ilustração
São muitas as possibilidades de criações que podem ser feitas com base em um projeto de arquitetura, tendo em vista a apresentação do trabalho ao cliente. Mas, podemos dividir as ilustrações de arquitetura, ou valorização gráfica de projetos, em:


Humanização de implantações e plantas baixas
Adicionando elementos complementares ao projeto, como móveis, plantas e carros, por exemplo, consegue-se dar uma noção real de escala nas plantas, que são desenhos particularmente de difícil compreensão por parte do leigo. As sombras são utilizadas para dar volume às paredes e para enfatizar a luz natural. Textura no piso também é fundamental;


Humanização de Fachadas e Cortes
Aqui utiliza-se os mesmos procedimentos da ilustração anterior, mas com a possibilidade de colocar um fundo ou entorno (inclusive céu). Os revestimentos de paredes devem ser convenientemente explorados;


Croquis de Estudo / Conceituais
São desenhos simples e rápidos, porém com grande impacto visual, apesar de nem sempre serem muito inteligíveis. É necessário bastante conversa e sinergia entre o profissional e o ilustrador;


Perspectivas para Apresentações Formais
São as perspectivas propriamente ditas, realizadas com base em projetos completos ou parciais para apresentação final ao cliente.

A partir deste ponto devemos separar as ilustrações de arquitetura em três vertentes: as artísticas, as eletrônicas (ou renderizações) e as mistas. Com exceção dos croquis conceituais (embora pode-se fazer renderizações com esse caráter), todas as ilustrações de arquitetura podem ser tratadas com ou sem o uso de programas gráficos. Quando falamos em “artísticas”, subentende-se que parte ou todo o trabalho foi elaborado com técnicas de desenhos à mão-livre - as renderizações eletrônicas também podem ser consideradas um trabalho de arte.

Para quem e porquê

As ilustrações de arquitetura, artísticas ou não, são feitas direta ou indiretamente para diversos profissionais e empresas :

- Arquitetos, decoradores e paisagistas: como falei anteriormente, estes profissionais utilizam as ilustrações para incrementarem suas apresentações e entregas e, assim, venderem melhor seus conceitos e projetos;

- Construtoras e Incorporadoras: aqui, as ilustrações são usadas no material publicitário de lançamentos de empreendimentos imobiliários para atrair e encantar os possíveis compradores de unidades. A diferença entre as ilustrações artísticas e eletrônicas, para esse mercado, certamente renderão um artigo à parte;

- Agências de propaganda / Imobiliárias: estes profissionais podem ser os clientes diretos dos ilustradores, ou podem direcionar o incorporador a contratar este ou aquele trabalho, dependendo do foco de consumidores que se deseja atingir.

Nos próximos artigos procuraremos desenvolver ou nos aprofundar sobre os diversos aspectos e questões ligadas a este tema, como a metodologia empregada, as técnicas, os materiais, as formas de apresentação, o uso do computador e programas gráficos, sempre procurando exemplificar com imagens e histórico de trabalhos. Também gostaríamos de receber sugestões para outros temas além de opiniões de outros ilustradores, profissionais, estudantes e professores sobre essa fundamental e poderosa ferramenta de comunicação: o desenho!

Um abraço e até lá.